MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS
PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO
GESTÃO DE ENSINO NA UNIVERSIDADE PÚBLICA NO SÉCULO
XXI:
O que é isso?
Profª. Anne Marie MOOR
Após a publicação
da Lei de Diretrizes e Bases da Educação em dezembro de 1996, o Brasil foi
provocado a pensar sobre a situação da educação e foi forçado a olhar de frente
o fato de que o que havia estava completamente fora da realidade da época. Tem
havido muita discussão a nível nacional de lá para cá, com diversas ações implementadas. Vieram os parâmetros e diretrizes
curriculares para o ensino básico e superior, foram construídos o Plano
Nacional de Graduação, o Plano Nacional de Extensão, houve mudanças
significativas na Pós-Graduação, foram criados os diversos fóruns de pró-reitores,
palco de discussões profundas em relação às universidades, foram implantados o
ENEM e o Exame Nacional de Cursos – PROVÃO, que trouxeram muita polêmica, mas,
principalmente, uma discussão séria sobre a necessidade da avaliação e os
diferentes métodos para isso. Vieram as avaliações das Instituições de Ensino
Superior, que estão em permanente reformulação, embora já
A gestão acadêmica na universidade
pública, em especial, a federal, neste momento de mudanças, tornou-se uma tarefa herculeana e um grande desafio. Pode ser dividida em duas
grandes vertentes – gestão pedagógica e gestão burocrática –, as duas caminhando
na mesma direção, interligadas pelos mesmos objetivos, qual sejam, a formação
de profissionais competentes. A gestão acadêmica, nas universidades, pode ser
considerada o coração do ensino superior, sem a qual perderia-se a razão de ser
da instituição. O grande desafio, na virada do século, se encontra na visão,
necessariamente, diferente do que seja ensino, aprendizagem, professor, aluno,
sala de aula, enfim, espaço pedagógico. Mudança essa resultante de uma
sociedade em constante ebulição, que está atrasada em comparação com outros
setores da sociedade. As diretrizes curriculares em construção a vários anos, estão apontando para um espaço pedagógico com
ações didáticas completamente diferentes daquelas com as quais estamos
acostumados. Melhores? Certamente. Difíceis de entender? Também. Um grande
desafio? Para aqueles que já entenderam que o que estamos fazendo não serve
mais neste momento.
Na
Universidade Federal de Pelotas, a gestão dessas mudanças está a cargo das
Pró-Reitorias de Graduação, de Extensão e Cultura, de Pesquisa e Pós-Graduação,
de Planejamento e Desenvolvimento e Administrativa. Essas pró-reitorias, pela
primeira vez, talvez, estão trabalhando juntas, no sentido de guiar as
transformações necessárias, mantendo o princípio da indissociabilidade do
ensino, pesquisa e extensão, a coerência de um planejamento organizado e o
suporte financeiro/orçamentário para viabilizar as ações. As palavras chave
desse momento são criatividade, motivação e colaboração.
O
final do século XX trouxe à frente de toda discussão a necessidade de motivar
as pessoas para participarem das transformações em andamento e a realização de
que nada se faz de maneira isolada. A ordem do momento são ações colaborativas, sejam no
processo de ensino, na aprendizagem ou na gestão. É em conjunto que se constrói
conhecimento e que se consolidam ações que facilitam o trabalho de administrar
um sistema educacional. Com isso, qualquer gestão hoje precisa manter como sua
linha norteadora a colaboração entre as partes da discussão, se desejarmos realmente transformar a ‘cara’ da educação e, em
especial, o processo de ensinar e aprender dentro das universidades.
Estamos
procurando novos modelos, ou, melhor, novas maneiras de ensinar e aprender.
Gostaríamos de falar um pouco, neste momento, sobre as razões da necessidade
imperiosa de mudança na formação dos profissionais, tarefa das universidades.
Encontramo-nos em um momento histórico, na qual vemos emergir novas formas de
conhecimento em uma era de informação. A universalidade dos sistemas
educacionais, a incorporação das tradições aos círculos intelectuais no mundo,
a tecnologia, a era da informação e o surgimento de novas formas de produção
exigem uma nova organização para os espaços pedagógicos em que se produz e se
motiva conhecimento.
A
missão civilizatória do mundo, que começou ao redor
de 500 anos atrás, resultou em um modelo de sociedade dominado pela ciência e
pela tecnologia. Modos de produção e divisão de trabalho e novos conceitos de
propriedade e riqueza são intimamente relacionados com a filosofia subjacente
que tornou tudo isso possível, proposto para justificar o processo de
conquista-colonização. Nesse processo os deuses, as línguas, os modos de
pensamento, de trabalho, de propriedade, de riqueza foram impostos em todo o
mundo. A ciência e os valores associados com o pensamento científico e racional
foram usados para relacionar variações de exploração dos seres humanos por
seres humanos. O conceito de humanidade e a ética para toda a humanidade foram gradualmente suprimida desse pensamento.
Esse modo de pensar, predominante desde o século XVI
foi responsável por interpretar as diferenças entre os seres humanos, como
estágios diferentes na evolução da espécie, pela idéia de que a busca da
satisfação espiritual era uma falta de racionalidade científica e que a
preservação do patrimônio natural e cultural era um obstáculo ao progresso.
Essas características do pensamento moderno levaram a um
comportamento desprezível – arrogância, indiferença e irresponsabilidade – pecados capitais e
possíveis causadoras de destruição. Violam a sabedoria natural da espécie e são a mais séria ameaça à extinção do ser humano.
Não podemos sobreviver sem uma ética que neutralize
essas características do pensamento moderno e que invoquem o princípio simples
e primário da preservação da vida e da civilização na Terra. Podemos chamar
isso de a ética da preservação, que se traduz em respeito ao outro apesar das diferenças, solidariedade com os
outros na satisfação de suas necessidades básicas por sobrevivência e
transcendência e cooperação com o outro na preservação do patrimônio
natural e cultural comum. O comportamento humano e a vida são inseparáveis.
Hoje, nas
universidades, em especial no ensino de graduação, a formação humanística é tão
importante ou mais do que a formação acadêmica. A própria formação acadêmica
precisa se repensar, para interagir com a humanística. A
gestão deste momento, como dissemos anteriormente, é um grande desafio.
O maior desafio é a motivação dos professores para a mudança. Qualquer mudança
assusta o ser humano e, embora saibamos que a graduação está em crise,
especialmente, por não estar preparando os profissionais para uma vida com
ética, temos muita dificuldade de pensar algo fora do convencional, que tenha a
possibilidade de quebrar com a falta de respeito, solidariedade e cooperação,
elementos indispensáveis para a melhoria da qualidade de vida no planeta.
Motivação, certamente, é a palavra chave. A interação
de muitos tipos de motivação poderá criar, na universidade, um ambiente
intelectual especial. Universidades são comunidades de aprendizes, sejam eles
astrofísicos examinando a matéria no espaço ou estejam recém entrando na
universidade, –
bichos –, sendo introduzidos ao universo da aprendizagem. Com objetivos de
investigação e de descoberta juntar-se-ia os elementos
díspares, para criar um sentido de unicidade.
A ecologia da universidade depende de uma compreensão
permanente de que a indagação, a investigação e a descoberta são
o cerne do processo de aprender, seja em projetos mantidos por órgãos de
fomento à pesquisa, seja na sala de aula, na biblioteca, no laboratório, nos
espaços de convivência, nas áreas verdes... Essa idéia leva forçosamente à
interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade.
A interdisciplinaridade, com a idéia de
relacionamento recíproco,
sendo um processo macro, externo ao aprendiz, maneira pela qual
se desenvolve o conteúdo. A transdisciplinaridade,
com a idéia de ‘além de’, ‘para além de’ ou ‘através de’, sendo um processo
micro, que desenvolve a forma e interno ao aprendiz.
A principal barreira aos estudos interdisciplinares
tem sido a organização
departamental tradicional às universidades brasileiras. Tem-se a
visão de que, administrativamente, toda atividade educacional precisa estar
lotada em algum lugar para que exista. Isso provoca um dos maiores problemas em
nossas universidades hoje – a fragmentação – que se agravou nos últimos 50
anos. Operamos em estruturas departamentalisadas,
tornando qualquer tentativa de interdisciplinaridade um pesadelo. Para que
possamos progredir e fazer reformas reais e significativas, precisamos
construir uma visão de integração entre pesquisa, extensão, graduação e
pós-graduação e acabar com a fragmentação de um processo de ensinar e aprender
que deveria ser integrada. A estrutura por cursos tem a vantagem de uma maior
generalização e facilidade de gerenciamento, podendo desenvolver as ciências
aplicadas e proporcionar uma maior integração. A transdisciplinaridade otimiza o processo, permitindo uma maior análise dos
elementos – professores e alunos - e uma
análise das relações. Propõe-se com isso, através do professor, atuar na forma,
visando a melhoria do desempenho do aluno no seu
percurso em direção a uma formação de qualidade. Os aspectos, nesse sentido, da
transdisciplinaridade permitem ações que auxiliem o estudante a conhecer-se, a
potencializar-se para o estudo, a montar o ambiente, a desenvolver a
comunicação, a aprender a estudar, a aprender a aprender, a fazer mapas mentais,
a criar. Para os professores, os temas ligados à transdisciplinaridade
resumem-se em entender o processo de ensino, o mecanismo do cérebro que dizem
respeito à aprendizagem, os tipos de raciocínio as inteligências múltiplas e
suas relações com a formação do profissional, os modelos instrucionais e os
estímulos ambientais.
Com isso, o primeiro ano da graduação precisa
desempenhar duas funções básicas – ser a ponte entre o ensino médio e o
lar de um lado e o mundo mais aberto e independente da universidade do outro.
Deve motivar o estudante pela riqueza, diversidade, escala e alcance das idéias
e descobertas que estão por vir. Deverá trabalhar os
aspectos da transdisciplinaridade, internos ao aluno. Se não o futuro de construção e produção de
conhecimento poderá ficar prejudicado.
Seguidamente, o primeiro ano é desprovido de interesse e novidade para o
ingressante à universidade. Como resultado, o estudante iniciante, que
necessita de motivação e do melhor ensino, poderá receber o pior, o que causa a
maior evasão no 3º grau.
Entendendo a relação estreita entre pesquisa,
extensão e ensino, as universidades devem pensar seriamente em criar estruturas
que possibilitem a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade no ensino de
graduação.
A
gestão pedagógica, neste momento, na UFPEL, passa pela construção coletiva da
reformulação do projeto pedagógico e a construção dos projetos pedagógicos de
todos os cursos de graduação e pós-graduação. Os professores, alunos e
funcionários estão passando por um momento de reflexão sobre os conceitos
introduzidos pela LDB e pelas Diretrizes Curriculares, conceitos esses novos
para a maioria da comunidade acadêmica. Por exemplo, o que é currículo,
flexibilização curricular, indissociabilidade do ensino, pesquisa, extensão, tão
falado há tanto tempo, atividade complementar, estágio, prática, espaço
pedagógico, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade ... Alguns desses conceitos podem parecer
familiares, mas será que eles têm o mesmo significado que tinham em outras
épocas? Ou será que têm o mesmo significado para todos nós?
A
gestão disso significa motivar a comunidade a compartilhar dúvidas,
frustrações, desejos, idéias, conhecimento, para que, juntos, possamos
construir um percurso novo para o ensino superior. Ao mesmo tempo, significa
atender às exigências do MEC em relação à avaliação – provão, condições de
ensino e PDI –, enquanto providenciamos cursos, seminários, palestras, para
subsidiar as diversas discussões acontecendo na universidade. Tudo isso regado
a prazos exíguos a serem atendidos.
A
gestão burocrática, que possibilita o funcionamento da gestão pedagógica está
passando pelos mesmos desafios já citados. Ao mudarmos a visão do processo de
ensinar e aprender na universidade, forçosamente, estamos
tendo que mudar as rotinas administrativas que lhe dão suporte. Mais uma vez,
as palavras chave são criatividade, motivação e colaboração.
Na UFPEL, isso está coincidindo com a transformação de um sistema acadêmico
arcaico em um sistema moderno e dinâmico, que atenda às necessidades da gestão
pedagógica e possibilite uma maior integração entre as partes.
As
grandes dificuldades encontradas nessa gestão são oriundas das ações históricas
no sistema educacional. São originárias de uma visão antiga sobre como se
aprende e como se ensina. São resquícios de falta de planejamento e,
principalmente, são resultado de uma grande falta de
saber trabalhar de maneira colaborativa, de ser criativo, de ouvir o outro e de
ter vontade de mudar.
Palestra proferida
na PUCRS em 2003.