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Paisagens do “Açude Grande” - Fio dental

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Eu tenteio mais um mate,
olhando o “açude brabo”,
nesse barulhão do diabo
como estrondo de combate,
enquanto meu cusco late,
pro lado do litoral,
vem cruzando - por sinal,
um lote lindo - pelado,
com aquele troço engraçado
que chamam de “fio dental”!

É um barbante colorido,
de cor berrante e moderna,
passado na entreperna
e na cintura prendido,
o fio termina escondido
e reparte pelo meio,
pra mim que domo e tropeio,
lidando com qualquer bicho,
o nome certo é rabicho,
pra segurar o arreio.

Eu sempre usei palito,
de guanxuma ou pitangueira,
na vivência galponeira
que integra o meu infinito
e não posso achar bonito
algo assim que me confunda;
não há primeira sem segunda
e à quarta sucede a quinta,
porém a graça despinta;
com esse barbante na bunda.

Jayme Caetano Braun
 

Mulheres farroupilhas

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Foi lançado ontem, em Porto Alegre, pela escritora Elma Sant’Ana o livro A mulher na Guerra dos Farrapos, em que destaca o papel feminino naquele importante decênio (1835-1845) da história do país. Numa pesquisa delicada, a escritora enumera mulheres como Caetana García y Gonzáles (mulher de Bento Gonçalves), a Chica Papagaia, a jornalista Maria Josefa, Bernardina Barcellos de Almeida, Isabel Inácia de Jesus, Delfina Benigna da Cunha, Isabel Leonor Ferreira Jardim, Nísia Floresta, Anna Joaquina Osório e várias outras que enfrentaram dificuldades da guerra e da manutenção das famílias enquanto os homens lutavam.

Todas merecem ser lembradas, mas uma sempre ficará em destaque, que foi a lagunense Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Anita Garibaldi. Anita morreu em Ravena, na Itália, com apenas 28 anos de idade, há 160 anos. Apesar de sua juventude, viveu três guerras (Farrapos, do Prata e da Unificação Italiana), ao lado de Giuseppe Garibaldi. É um livro que merece ser lido por todos aqueles que se interessam pela Revolução Farroupilha e este importante período do Rio Grande do Sul.

Dias ruins

terça-feira, 24 de março de 2009

Tem dias que tudo conspira contra o peão. É coisa de louco! O melhor é colocar um jujo bem calmante no mate, sair ao tranquito e deixar a poeira baixar. A la fresca!

Fiz ontem repontar o meu bagual,
O meu bagual sebruno rabicano,
E fui ver, no rincão do Faxinal,
A china, que não via há mais de um ano.

Sestroso sempre, o puava do bichano,
Mal sente pelas ventas o buçal,
Bufa, como um feroz republicano
Se lhe falam no trono imperial.

Atiro-lhe lombilho. A barrigueira
Fá-lo gemer. O pingo o solo cheira
E faz partes de guapo redomão.

Monto. Debalde o bruto corcoveia,
E quando a todo o lombo se plancheia,
Saio folheiro - a rédea pela mão.

F. A. Vieira Caldas Júnior  - (Porto Alegre)

Aniversário de J. Simões Lopes Neto

terça-feira, 10 de março de 2009

Hoje é  um dia especial para a cultura do Rio Grande do Sul. Se fosse vivo, estaria de aniversário João Simões Lopes Neto, o grande escritor gaúcho, jornalista, teatrólogo e o maior contista. Que o Negrinho do Pastoreio o abençõe!
Para mais informações sobre o escritor, acesse o site de Pelotas, onde encontrará biografia e, obras com texto completo. http://pelotas.ufpel.edu.br.

Mateando

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Glaucus Saraiva

Palmeio o velho porongo,
Derramo a erva com jeito,
Encosto a cuia no peito
Batendo a erva prá um lado;
Com os quatro dedos curvados
Formo um topete bem feito.
Com um pouquinho de água morna
Bem devagar despejado,
Tenho o amargo ajeitado
Que ponho a um canto prá inchar
E espero a água esquentar
Pitando o baio sovado.
A pava chiou no fogo
Encho a cuia que promete;
A espuma se arremete
Bem prá cima, borbulhando,
E acariciante, beijando,
Branquela todo o topete.
Agarro a bomba de prata,
Tapo o bocal com o dedão,
E calço o bojo bem no chão
Da cuia e vou destapando
A bomba que vai chupando
Um pouco do chimarrão.
Derramo outro pouco d’água
Para aumentar o calor…
E o mate confortador
Vou sorvendo em trago largo,
Pois me saiu um amargo
Despachado e roncador…

Uma biblioteca

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Autor gaúcho renomado, Luiz Antonio de Assis Brasil, escreveu um artigo que deixou todos os bibliotecários faceiros como lambari na sanga. Com maestria ele deu todo o valor que uma biblioteca deve ter e de lambuja, falou bem dos guardiões deste templo da sabedoria que é a biblioteca. Gracias ao Assis Brasil pelo reconhecimento, em nome de todos os colegas. Agora lê o que ele escreveu, pois está por demais de bueno!

Uma biblioteca (Luiz Antonio de Assis Brasil )

Uma biblioteca não é apenas um lugar em que ficam os livros. Uma biblioteca é um lugar que nos pega por todos os sentidos. O livros nas estantes, sábios numa assembléia, estão ali, olhando-nos sem curiosidade: eles têm séculos de existência à nossa frente, eles sabem de onde viemos e para onde vamos.
Uma biblioteca não terá fim. Bibliotecas são para sempre. Ali se respira o ar do tempo que, em seu lento evoluir, cria romances, novelas, contos, tratados,compêndios, ensaios, artigos, poemas, dicionários, enciclopédias, e também jornais, revistas.
Uma biblioteca tem o cheiro do tempo. As páginas, amarelecendo como se estivessem num perpétuo outono, possuem um perfume que só os iniciados conhecem.
Ao olharmos à distância para uma estante de biblioteca, não distiguiremos os nomes dos autores, nem os títulos dos livros. Todos os livros parecem iguais. Enquanto não nos aproximarmos, eles irão manter-se numa velada promessa. Isso é bom; isso incita à aproximação. Esse zoom que fazemos com ansiosa expectativa, ao chegar perto das lombadas, revela-nos os títulos, os nomes, numa descoberta caprichosa, quase solene e, ao mesmo tempo, íntima. É como uma descoberta do mundo.
Ao levarmos a mão a um livro, ele se torna nosso. Mesmo que saibamos que ele já foi muito manuseado e que depois passará a outras mãos, naquele instante único ele é nosso. Só nós temos o direito de lê-lo. Na leitura silenciosa não há partilha. É um bem-vindo egoísmo, uma luxúria do espírito.
Mas há novidades neste mundo tão antigo. Depois de quase 500 anos, começam a surgir outras modalidades de uma obra chegar ao seu leitor. Como nova geração, chega com algum alarde. Mas nós sabemos, também, que essas novas formas vieram para permancer entre nós. Ótimo: são muito bem-vindas. Seus lugares já estão escolhidos: serão numa biblioteca. Ali conviverão em diálogo com as gerações mais velhas. Ali recebrão o cuidado dos bibliotecários. Ali, esses generosos e eficientes funcionários saberão dar a palavra certa ao leitor. Ser bibliotecário é mais do que assumir uma profissão: é entender o mundo como uma ordem. Bibliotecários instauram o Cosmo em meio ao Caos.
Assim, inaugurar uma biblioteca é dar sentido a tudo o que o ser humano fez nesta longa trajetória sobre a Terra. Sem nenhum drama nem exagero podemois dizer: inaugurar uma biblioteca é um ato para a eternidade.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Uma biblioteca. Zero Hora, Porto Alegre, p.16, 05 nov. 2008.

Cyro Martins e o gaúcho a pé

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

 Nascido em Quaraí, em 05 de agosto de 1908, Cyro Martins começou a escrever aos 15 anos. Eram artigos políticos, oposicionistas, libertadores e contos regionalistas.

Formou-se em Medicina em 1933. No ano seguinte, publicou seu primeiro livro: “Campo Fora”. Nesse livro, recolhi as experiências infantis e sobre elas trabalhei com a minha fantasia de escritor. Em Quaraí, o balcão da venda de seu Bilo (seu pai) foi o que ele chamou de o grande mirante de onde via desfilar a decadência do gaúcho. A fantasia de “Campo Fora” deixa lugar para a amarga realidade de uma gente sem estímulo. Cyro escreve, então, “Sem Rumo”, sobre o gaúcho a pé, expressão que usou pela primeira vez em 1935 e que serviu para definir a trilogoia que se formou depois com “Porteira Fechada” e “Estrada Nova”.

Cyro Martins disse certa vez que não ser um escritor de carreira. “Permaneço na condição de escritor bissexto, pois toda a minha literatura é feita no rabo das horas. O melhor das minhas possibilidades intelectuais foi consagrado à Medicina, em especial à Psiquiatria e à Psicanálise. mas esta afirmação não significa menos ternura pelo que realizei no plano da ficção literária.”

Sobre a importância da literatura, disse que “afinou minha sensibildiade para a pesquisa da alma humana, sobretudo porque nunca fiz regionalismo no sentido pitoresco e sim para buscar o que havia de universal naquele homem singular que era o gaúcho a pé.”

Ao lembrarmos da obra e vida de Cyro Martins, é quase impossível não pensar também em Dyonélio Machado. Também natural de Quaraí, Dyonélio soube trabalhar com maestria a relação entre a psiquiatria e a literatura, que são dois importantes motores para o profundo conhecimento da alma humana. Escritores e médicos, Cyro e Dyonélio, além de conterrâneos, foram dois expoentes da literatura gaúcha e brasileira.

Feira do livro no Acampamento Farroupilha

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Uma das novidades no Acampamento Farroupilha deste ano é a Feira do Livro Tradicionalista. O objetivo da feira, segundo organizadores do acampamento é levar a história e a cultura do Rio Grande do Sul aos visitantes.
De acordo com a professora Léa Masina, do Instituto de Letras da UFRGS, dez obras são imprescindíveis para entender a história e tradições gaúchas.
- O critério da relação é a preocupação com o tema gauchesco, independentemente de os autores assumirem atitudes favoráveis ou contrárias à ideologia - explica Léa.
O maior acervo na Feira do Livro é o da Calle Corrientes, com cerca de mil títulos, inclusive com temática gauchesca em espanhol. A Martins Livreiro, que trabalha apenas com literatura gauchesca, apresenta livros variados por ter uma oferta maior de títulos.
A Feira do Livro tem espaço para apresentações culturais, que atraem o público para literatura tradicionalista e está aberta das 10hs às 22hs.
Além das editoras já citadas, há também a Cassol Livraria e a Edipucrs. A promoção é da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).
De acordo com a porfessora Léa, os dez livros mais imprenscindíveis para se conhecer mais sobre o gaúcho, são:

1. Contos Gauchescos - João Simões Lopes Neto
2. Antônio Chimango e Outros Textos - Amaro Juvenal (Ramiro Barcelos)
3. Ruínas Vivas - Alcides Maya
4. O Tempo e o Vento (Trilogia) - Erico Verissimo
5. Os Farrapos - Oliveira Bello
6. Trilogia do Gaúcho a Pé - Cyro Martins
7. Poemas - Jayme Caetano Braun
8. Contos e Poemas - Aparício Silva Rillo
9. Vocabulário Sul-Rio-Grandense - Romanguera Corrêa
10. Prosa dos Pagos - Augusto Meyer

No site da Biblioteca de Ciência & Tecnologia há uma listagem de sugestões de leitura de diversos autores e gêneros da literatura gaúcha. Acessa o link neste blog e vai lá, tchê! Boa leitura!

O vaso de ouro

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O vaso de ouro (Luiz Coronel)
- Mas que tal, tchê? E as exposições, muita festa e coisa e tal?
- Bicho velho, nem te conto. Numa noite me enfezei com umas muchachas e saí a la gandaia. Terminei numa casa de tais requintes, que quando fui soltar as virilhas o vaso era de ouro. Ouro maciço, Elpídio. Até me deu constrangimento.
- Manuelito, menos, por favor. Não te retruco, nem te contradigo, mas vamos deixar esse vaso de ouro por conta dos tragos, mano velho.
- Tchê, tu sabes, se há uma coisa que me embrulha a cabeça e me arrepia os pelos é duvidarem de mim. Vamos apostar? A gente vai junto à Capital. Mijamos no vaso de ouro, escolho um cavalo crioulo dos teus, e afora isso uma garrafa de Ballantines.
Não mijamos, babaus, o ganho é teu.
E o rebanho dos dias entrando no corredor das semanas. Um dia, desses que aparecem pendurados nas folhinhas, lá estavam o Elpídio e o Manuelito no Hotel Umbu. O nome já era uma garantia contra os raios.
E saíram pela noite dos alarifes.
Um uísque, aqui não é. Um acepipe e dois uísques, também não. E vamos em frente, que casa noturna é o que não falta. E, afinal de contas, a noite é uma criança.
Lá pelas três da madrugada, entram numa espelunca onde a música, deflora os tímpanos e refestelava as pinguanchas.
Mas foi o Manuelito botar o pé no salão, que veio o grito desaforado de um tal de Manchinha, cantor da Banda Fuzarqueira:
- Mutuca, Mutuca, olha o cuera que mijou no teu trombone!
E foi aquele pega pra capar.
Voltaram para Dom Pedrito. Até hoje ninguém sabe quem pagou quem. Agora, é freqüente ver os dois comparsas, sentados, numa cadeira de rua, tomando umas que outras de Ballantines…

Gaúcho Farrapo

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Sou feliz , nasci Gaúcho,
Deus me deu este regalo,
sou briguento que nem galo
peleando no rinhedeiro,
sou pachola, sou faceiro,
sou bagual, não tenho encilha,
sou livre, sou farroupilha,
pra lutar fui um guerreiro.

Sou xucro, criado guaxo,
falquejado em coronilha,
fui cincerro de tropilha
de um tempo maula e aragano.

Sou alçado, não tenho dono,
meu andar ninguém maneia,
sou noite de lua cheia
vigiando, não tenho sono.

Meu grito é retumbar de legüero
chamando e atiçando a tropa.

Meu destino é quem galopa
nas patas da evolução,
sou raiz, sou tradição
de um passado de glórias,
fui revolução, sou  história
lutando por este chão.

Eu demarquei as fronteiras,
da República Riograndense,
o Rio Grande me pertence,
eu lutei para este fim,
fui tambor e fui clarim
nos fervores de uma guerra.

Eu sou filho desta terra,
fui Farrapo e sou assim.

Sou bandeira que esvoaça
guarnecendo esta querência.

Me ajoelho em reverência
ao meu pendão desfraldado,
verde, amarelo, encarnado,
tem força de Liberdade,
Igualdade e Humanidade,
símbolos de que fui marcado.

Ser livre, este é o sentimento
que trago neste peito guardado,
e que só fica rebelado
quando a justiça se afasta.

Gaudério, ninguém me castra,
sou taura e sou índio macho,
envergo mas não me agacho.

SOU GAÚCHO
E ISTO ME BASTA!

  • Adenir Paz da Silva