Mas bah, indiada, se tem uma coisa buenaça é um causo. Este gênero de literatura, tão gaúcho quanto o chimarrão e o churrasco, é apreciado junto a um fogo de chão. Depois de um dia árduo de trabalho, nada como um causo. Há muitos livros deste gênero no RS e todos tem as particularidades locais. Mas de uma coisa ninguém dúvida: é mui bueno um causo. O nosso poeta Luiz Coronel diz o seguinte: “conto é ambrosia, causo é rapadura“. Vou deixar um aí para vocês lerem.
Também é bom
O Evaristo Cambota certa ocasião chegou na bodega do Manoel Coisaca, pediu uma cerveja (cachaça é bebida de crioulo); puxou uma cadeira, sentou-se, tirou do bolso um naco de fumo amarelo misturado com “jorge”(1), fechou o “baio”(2) e puxou a “seca”(3) com os que já estavam ali.
Conversa vai, conversa vem, diz o Mirote:
- Tu sabe, Evaristo, que o Aquilias Borges deu com a cola na cerca?
- Que, o Aquilias, não pode…
- Pois foi…
- Mas quando, criatura? Pelo que eu saiba o Aquilias tinha mais saúde do que boi do coice ali da carreta do Froravante.
- Pois é…
- Mas, afinal, de que é que o coitado morreu?
- Se matou-se…
- Se matou-se? Ah, essa não… Trancou uma bala nos cornos?
- Não, tomou tatuzinho(4)…
- Ah, é bom também…
(1) - Jorge: é uma variedade de fumo em rama, originário da Geórgia, estado dos EUA, que também é chamado de Jorgina, que tem uma coloração mais escura do que o amarelo.
(2) - Baio: cigarro de palha, que também assim é chamado em virtude da palha de milho ser mais ou menos da mesma coloração do pêlo do cavalo baio.
(3) - Seca: é o mesmo que conversa.
(4) - Tatuzinho: um tipo de veneno muito conhecido no RS.
Fonte:
CABRAL, Alceu. Causos e lorotas. 2.ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2003. 84p.