Entrevista

       Entrevista cedida por Loreena McKennitt a Eduardo Araia, da revista Planeta Nova Era, n0.8, 1998.

       EA - Você nasceu e cresceu nas pradarias canadenses, numa comunidade de imigrantes com raízes na Irlanda, Escócia, Alemanha e Islândia. Como isso colaborou na característica transcultural e ecológica observada em seu trabalho? Loreena McKennitt

       LM - Creio que os cenários naturais e as lembranças de infância podem ter servido como ponto de apoio para o gosto que eu nutri por um modo transcultural de vida. E o Canadá é tão multicultural hoje! Eu me lembro, por exemplo, de estar em meio a reuniões de pessoas, música, comidas diferentes... Até mesmo num bazar de igreja podíamos encontrar pratos islandeses, alemães, irlandeses. Foi importante, como compositora, sentir esse tipo de coisa por mim mesma - o fato de que o mundo é bem mais do que apenas um grupo cultural.

       Você define sua música como um tipo de "world music", onde se misturam influências de vários países. Mas muitas pessoas ainda tendem a encaixá-la no vago rótulo "New age". Como você define "new age", "world music" e as diferenças entre elas?

       Antes de mais nada, penso que quem deseja iniciar uma discussão a esse respeito poderia dar uma olhada na história da categorização, da classificação da música. Para mim, essa terminologia desenvolveu-se em função da indústria, e não necessariamente a partir dos ouvintes. As pessoas na rua não se importam realmente sobre como a música que ouvem é rotulada; importa-lhes apenas sentir se a consideram interessante ou não.
       Creio que a categorização ocorreu como um instrumento pragmático para ajudar as pessoas a localizar-se numa loja de discos, quando elas não sabem nomes de artistas ou de gravadoras. Nesse sentido, ela apresenta um auxílio positivo. Mas penso também que a categorização é um recurso infeliz.
       Como definir a categoria de música new age? Eu diria que é o tipo de música que tem a capacidade de atuar, em variados níveis - desde o heavy metal até os cantos gregorianos, a música clássica ou o jazz -, no sentido de tocar as emoções dos ouvintes e causar algo diferente em seu interior. Quando você está apreciando uma música new age, notará que essa música proporciona fundamentalmente uma atmosfera; ela não está querendo desafiá-lo, não deseja que você se concentre em algum aspecto em particular, não quer atrair sua mente neste sentido. Reconheço que há diferentes tipos de atmosfera em minha música, mas penso que existem várias outras coisas nela além de atmosferas.
       A world music implica a fusão de influências de diversas culturas ao redor do globo. Por essa condição, ela é a que mais se aproxima da música que faço, porque eu realmente uso muito dessas influências. Mesmo assim, acredito que na minha música existem assuntos e temas que não aparecem em absoluto na new age, e só esporadicamente são encontrados na world music, considerando esta última no sentido de recorrência a um arquivo da tradição musical; o que faço tampouco é recorrer simplesmente a esse arquivo - há, no meu trabalho, um processo derivativo em vários níveis.
       Portanto, minha música não se encaixa exatamente nessas definições, e isso se reflete claramente nas pessoas que contatam meu escritório. Vemos indivíduos de diversas faixas etárias, profissões - professores de arqueologia, geólogos, motoristas de caminhão, por exemplo -, membros de diferentes grupos religiosos... Enfim, pessoas com os mais variados gostos musicais. Fui entrevistada recentemente por uma revista de heavy metal... Portanto, essas pessoas não estão na realidade interessadas em rótulos; mas numa música que se conecte a elas.

       Você considera que a música do futuro tende a ser uma miscigenação cada vez maior deculturas e estilos?

       Imagino que sim, porque com uma maior afluência mais e mais pessoas são capazes de viajar, comprar computadores, televisões, etc., e a partir da reunião de tudo isso o mundo está ficando cada vez menor e estamos ficando expostos a outras culturas de maneira mais ampla. Penso que alguém que atua criativamente também passa pelo mesmo processo.

       Como você explica que manifestações ligadas à cultura céltica, como a música que você faz ou o ressurgimento da religião wicca, estejam obtendo tanta repercussão hoje em dia? O que a cultura céltica tem a dizer para o ser humano atual?

       Há muitas outas pessoas que entendem bem mais desse assunto do que eu. Tentei estudar a história e a música dos celtas e aprender o máximo que pude, mas não me considero em absoluto uma autoridade no Carrighfergus tema. Antes de ir à esposição de Veneza, de 1991, que foi a maior reunião de artefatos celtas de todos os tempos, eu pensava que os celtas eram simplesmente um povo que viera da Irlanda, Escócia, País de Gales e Bretanha.Lá, vendo obras provenientes de pontos tão afastados quanto a Hungria, a Ucrânia, a Espanha e a Ásia Menor, eu fiquei maravilhada. Foi como pensar que a família são apenas os pais, irmãos e irmãs, para então descobrir que existe todo um segmento histórico que constitui um prolongamento da própria pessoa.
       Musicalmente falando, existe algo de muito estável na música céltica, que indica essa resurgência a qual estamos testemunhando agora. A música céltica trouxe um contexto de sons variados, e toca as pessoas de uma forma pouco conhecida e muito mais profunda. Este é um assunto muito complexo. Quando se começa a estudar outros aspectos da cultura céltica, percebe-se que, como ocorria em outras culturas primitivas, eles eram intimamente envolvidos com o mundo natural; seu tino dependia dessa relação com o mundo natural. Hoje em dia, essa música leva muitas pessoas que perderam seu contato com a natureza a refazer essa ligação. De qualquer modo, é difícil para uma mente contemporânea entender o que uma mente antiga, como a dos celtas, tencionava ao escrever seus textos, produzir sua música ou suas obras de arte. Ao tentar fazer isso, estamos, na verdade, dando interpretações contemporâneas a situações dos antigos, e não podemos entender tudo isso por completo.

       Seu ponto de partida vem sendo a tradição céltica, mas ela a tem levado a terras distantes, como Portugal ou Turquia. Essa tradição continuará no centro de suas criações ou você está expandindo suas fontes de inspiração com outras tradições não relacionadas aos celtas?

       Essa expansão, essa penetração em outras áreas, já está acontecendo. eu percorro outros caminhos tal qual Marco Polo fez em sua época, viajando por lugares, encontrando pessoas. A faixa "Marco Polo", de meu mais recente álbum, The Book of Secrets, evoca exatamente este sentido de viagem, o contato com maravilhas, sons e visões diferentes. Assim, creio que já estou me esforçando e respondendo criativamente às áreas periféricas do passado cultural celta. Mas a raiz do meu trabalho continua sendo a cultura céltica. A música desse povo me atraiu de forma quase instintiva, e se transformou num veículo de pesquisa da história, de uma forma que eu jamais poderia ter imaginado. Quando eu ouço música céltica, ou vou à Irlanda - o que acontece três ou quatro vezes por ano -, sinto instintivamente que estou voltando para casa. E preciso ficar atenta a isso: o enorme fascínio e interesse que tenho ppor outras culturas não significa necessariamente que seria capaz de recriar suas formas musicais de maneira bem sucedida. É muito importante ampliar as fronteiras criativas, mas penso que temos também de ser realistas sobre o que fazemos melhor e respeitar os próprios limites. Para o futuro, penso que ainda existe muito o que fazer e aprender em relação aos celtas, sua contemporaneidade, como sua influência atuou sobre as pessoas com origens célticas, como algumas populações do Cáucaso. Mas, assim como fiz em The Book of Secrets, não me concentrarei só nisso. Loreena McKennitt

       Sua música também toca muito no tema da religião e da busca religiosa. Como você analisa essa faceta de seu trabalho? Acredita que este é um dos fatores do sucesso que vem alcançando?

       Pelo fato de minha música obter sucesso em tantos países que não falam o inglês, nos quais as pessoas freqüentemente mergulham nessas composições apenas pelo seu lado sonoro, sem entender o que está sendo cantado, creio que existe algo de atrativo nelas, além das letras - talvez os arranjos, talvez a textura da minha voz, talvez uma capacidade emocional de fazer com que esses ouvintes se conectem ao que estou lhes apresentando. Creio que esta é a razão primária de haver interesse pelo meu trabalho. Não penso que as pessoas se sintam atraídas primeiramente pela forma com que abordo temas religiosos os espirituais em minhas composições. Mas há várias pessoas que se interessam mais pelo nível oral do meu trabalho, e muitas delas percebem a capacidade da música de mexer conosco de uma maneira espiritual; nesse sentido, eu uso as letras como plataforma para discutir tais assuntos.

       Você cita no CD The Book of Secrets, uma frase de Lao Tsé, "Um bom viajante não tem planos fixos e não objetiva chegar". Também se referindo ao movimento, um poeta português do século 16 disse que "navegar é preciso, viver não é preciso". Movimentar-se, abrir para o novo e o inesperado, é condição fundamental para existir e criar?

       Para mim, viajar é uma grande fonte de inspiração. Tenho muito interesse em aprender sobre o mundo, sobre mim mesma, e acredito que viajar é uma maneira de fazer isso. Posso me considerar uma pessoa muito afortunada em poder engajar tudo isso ao meu trabalho ecriar algo a partir daí. E não falo apenas de viagens físicas: o próprio processo de aprendizagem é um tipo de viagem. Posso, por exemplo, ficar em casa e ler um monte de livros examinando vários assuntos e as inter-relações entre eles. Afora isso, como muitos compositores e letristas, eu também uso minha própria vida como fonte de inspiração.
       Sinto que tenho a sorte extraordinária de ser capaz de unir o veículo dos meus talentos ao combustível da minha curiosidade e imaginação. Este processo permitiu-me explorar o que há de mais profundo na humanidade e na condição humana, de forma tangível e rica em significado. Ensinou-me que somos realmente uma culminância das nossas histórias coletivas e que, no final das contas, não apenas somos e fomos mais ou menos os mesmos, como existem entre as pessoas mais elementos de ligação do que separação. É a força de uma fé que eu abraço integralmente.

       Você tem uma experiência muito interessante como dona de uma gravadora própria. Pode nos contar resumidamente essa trajetória? Embora seu trabalho tenha indiscutível qualidade, você acredita que teria alcançado tal projeção neste mesmo espaço de tempo se procurasse desde o início se ligar a alguma grande gravadora?

       Acho que minha origem rural e agrícola que me ensinou a ser auto-suficiente. Você se acostuma a resolver problemas de forma criativa. Quando você quer mesmo alguma coisa, o jeito é arregaçar as mangas e partir para a luta. Um livro que li no início da década de 80, How to make and sell your own recordings ("Como gravar e vender seus próprios discos"), de Diane Sward Rapaport, serviu de inspiração para eu criar minha gravadora, a Quinlan Road, em 1985. O primeiro trabalho foi Elemental , uma fita com nove canções cujas cópias eu vendia no carro, enquanto fazia apresentações na rua. Nesse mesmo esquema lancei ainda To Drive the Cold Winter Away e Parallel Dreams; já o álbum seguinte, The Visit, foi lançado dentro do contrato com a gravadora Warner. Por esse contrato, cuido de todos os aspectos de criação e promoção, enquanto a Warner cuida da distribuição.
       Sabendo agora o que eu sei sobre a indústria fonográfica e o meu projeto particular dentro dessa indústria, creio que não teria alcançado tal projeção se estivese ligada desde o início a uma grande gravadora. O que faço é um tipo específico de música, não é mainstream, e por causa disso não tem acesso aos meios habituais de exposição de um produto do gênero, como o rádio ou a televisão. Isso implica num trabalho árduo e intensivo de divulgação, de encontrar locais onde tocar as músicas, colocar pôsteres, fazer versões em cassete,, enfim, de utilizar mecanismos que possam fazer os ouvintes se envolverem com esses produtos. Como a maioria das grandes gravadoras possui, em minha opinião, artistas demais, projetos demais, e muito pouca gente para trabalhar neles, não acredito que elas conseguiriam fazer com trabalhos cmo o meu o sucesso que consegui nesse espaço de tempo. Ao estabelecer uma gravadora própria (a Quinlan Road) e vender dezenas de milhares de cópias de meus álbuns no Canadá, como independente - antes de me aliar a uma grande indústria fonográfica -, provei que existe uma audiência interessada nesse tipo de música, mas creio que esse gênero demanda uma atenção e um envolvimento que as maiores gravadoras, da maneira como estão estruturadas, não teriam condições de oferecer.


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