2 - Clarissa

2.2 - Comentário da Obra


RELEITURA DE "CLARISSA"
O romance sempre conta uma história de ficção que seu autor criou a partir das angústias, insatisfações ou alegrias que a realidade lhe ofereceu. As personagens inventadas serão projeções da sua experiência no mundo real transposto para a ficção. Assim, o romancista será bom ou mau romancista justamente na medida em que a sua capacidade de expressão nos faça aceitar como verdadeiro esse mundo que é de pura fantasia, quando as pessoas fictícias nos convençam e emocionem tanto quanto as pessoas "reais". Pois essa é a qualidade maior da Clarissa de Erico Verissimo e também, creio eu, o segredo da comunicabilidade que tenha assegurado o sucesso da sua história junto ao público nos últimos quarenta anos. Clarissa se impõe como pessoa viva, movimenta-se com ritmo e luminosidade, despertando a simpatia do leitor, que passa a dialogar com ela na identificação ou na recordação. No primeiro caso estarão os leitores da sua idade, adolescentes por volta dos quatorze anos, que subitamente se vêem refletidos na complexa psicologia duma menina onde o próprio desenrolar da vida é uma constante descoberta. Os outros somos nós, leitores adultos, mais sérios e exigentes em relação à literatura, que, não obstante, tranformamos a exigência em adesão quando Clarissa representa aquele mundo que já foi nosso, ao qual desejaríamos voltar, repetindo-o mais uma vez.
"Clarissa vai andando aérea, sem esforço, leve, como se tivesse asas. As abas do chapéu bamboleiam, moles, põem-lhe no rosto iluminado uma sombra mansa que lhe vai até o meio do nariz, dividindo-lhe o rosto em duas zonas distintas. Dentro da zona sombria os olhos fulgem. Dentro da zona luminosa os lábios ainda ficam mais encarnados. Clarissa não responde, não ouve, não atende. Anda longe, numa viagem maravilhosa."
Neste livro de 1933, primeiro romance de Erico Verissimo, o gosto pelo rigor da descrição pela minúscia da fotografia, manifesta, como característica que o acompanhará sempre, sua fidelidade à vida tal como ela é em toda a multiplicidade de variados aspectos, inclusive aqueles que se apresentam sórdidos e desagradáveis. Trata-se de uma posição realista que assegura a veracidade do cenário retratado e dos seres que nele se movimentam. O romancista não se impõe às personagens; e isso as faz viver como gente de carne e osso. O universo de Clarissa, dependendo do ângulo em que observemos, pode ser muito limitado ou infinitamente amplo em sugestões e promessas. Na verdade, está circunscrito ao estreito território da pensão de tia Zina e sua população pequeno-burguesa consumida na luta inglória pelo ganha-pão de cada dia. Entretanto, a presença de Clarissa amplia pouco a pouco a significação desse cenário, porque a narrativa se organiza em torno ao seu desdobramento psicológico, e o que de fato interessa é a sua descoberta em relação aos seres e às coisas que a cercam. Imperceptivelmente, o autor se dissimula, quase escondendo-se num segundo plano, e deixa que a revelação do mundo observado se apresente através das surpresas, dúvidas e curiosidades que preenchem a consciência de Clarissa. Assim, fica aberto um caminho que permite a passagem da simples fotografia para o romance psicológico, de maneira que o leitor já não perceba a história como coisa "armada", sentindo-a antes como parte integrante de uma experiência vivida. A "naturalidade" do relato guarda esse atributo indispensável à grande ficção de onde nasce o verdadeiro mundo das personagens: a possibilidade de, existindo como fantasia, também poder ter existido na realidade. Este segredo do romancista é a prova da sua sensibilidade diante do assunto extremamente complexo que escolheu - o nosso mundo banal e opaco de todas as horas, redescobre através da perspectiva (meio lógica, meio fantástica) da adolescência:
"... sobre uma coluna de madeira escura, a um canto da sala rebrilha o aquário. Pirolito está agitado. Será que luz elétrica o assusta? Clarissa se aproxima do vaso de cristal. Agora nota que a água parece toda cheia de rebrilhos. A janela, as lâmpadas elétricas, os móveis de sala, tudo se reflete no aquário."
Tradicionalmente, o romance da adolescência tem sido um desafio para muitos escritores, porque aí torna-se impossível aceitar personagens que falam a mesma língua do autor, pensam e agem como adultos e, irremediavelmente, situam-se fora da nossa capacidade de compreensão. Ultrapassando o perigo, Erico Verissimo preferiu que Clarissa, ela própria, o conduzisse entre as coisas que vão aparecendo no fluxo da descoberta. O mundo juvenil, povoado de sonhos e fantasias, possuía uma peculiaridade inconfudível: estava todo ele "refletido no aquário", mudando o desenho a todo momento, metade de cada coisa revelada e a outra metade ainda interrogável na sombra. A realidade teria de ser capitada, pois, basicamente, de um problema de linguagem, isto é, encontrar a linguagem que narrasse a consciência fantasiosa de Clarissa e, ao mesmo tempo, preservasse a sua identidade, sem se confundir com a perspectiva adulta e racional do ser criador. Conheço poucos que, como ele, tenham alcaçado sucesso nesse empreendimento, ao abordarem personagens adolescentes - um Ferenc Molnár, um Szimond Móricz, um J.D. Salinger, um Otávio de Faria.
Fiel à estrutura da narrativa psicológica e à natureza da personagem, Erico Verissimo optou por um estilo pictórico, no qual as descrições valorizam sobremaneira a visualidade. Tudo se oferece mediante uma infinita gama de variações cromátidas, tonalidades e reflexos que buscam estabelecer, na órbita do cenário físico, o espelho das filigranas psicológicas que compõem a imaginação juvenil. Daí a preferência do romancista, neste livro, pelo adjetivo, pelas imagens que realçam a natureza e integram uma visão caleidoscópica, iluminando o espaço circundante. Justamente sob esse aspecto, o autor de Clarissa evidencia sua vinculação com o panorama literário da época. Se a linguagem pictórica, o estilo cromático, tornam-se um recurso inteligente na elaboração da personagem, não é menos verdade que já pertenciam a uma longa tradição da literatura sulina, que iria alcançar um de seus pontos altos naqueles dias da publicação de Clarissa. Trata-se da tradição simbolista, na qual germinaram as obras de Eduardo Guimaraens e Alceu Wamosy, cujas raízes profundas se estendem por toda a produção literária do início do século para alcançarem, por volta de 1930, as melhores manifestações do Modernismo no Rio Grande do Sul. No ano em que surgiu Clarissa, 1933, Augusto Meyer já publicara dois livros que mantêm e renovam a tradição simbolista, onde a linguagem poética capta a magia da paisagem através da cor, nos jogos de sombra e luz: Poemas de Bilu e Giraluz. Estava em pleno desenvolvimento, também, a poesia de Mário Quintana, que um pouco mais tarde, apresentaria Rua dos cata-ventos. Creio que na linguagem de Clarissa encontra-se muito dessa herança simbolista presente no ambiente da época, os mais profundos estados de ânimo entregando-se na pura visualidade, como nos versos de Augusto Meyer:
"Amo tudo o que é móvel e flutuante
porque os meus olhos não se fecham sobre a imagem e
as minhas mãos tem o orgulho das corolas vazias..."
O trabalho criador de Erico Verissimo exerceu-se na reelaboração dessa vertente estilística, transferindo uma linguagem até aí mais própria à poesia para a prosa descritiva de Clarissa. É verdade que, em romances posteriores, nota-se uma sensível evolução, pois, na medida em que ele abandona a simples pintura de caracteres para investir na área do romance social, a partir de Caminhos Cruzados, o estilo passa por um processo de depuração, tornando-se mais seco e agressivo, procurando a objetividade e atenuando bastante a preferência inicial pelos aspectos simplismente poéticos da existência. No caso de Clarissa, entretanto, a expressão apoiada no adjetivo e na seqüência de imagens visuais garante o clima encantatório da narrativa, aliás o único em que poderia nascer com verossimilhança a história de uma adolescente de quatorze anos ainda mergulhada no deslumbramento do descobrir-se. O próprio Erico viria a considerar, mais tarde, o seu livro como "uma coleção de aquarelas e poemetos em prosa em torno da vida cotidiana".
No entanto, também o lado obscuro e amargo da vida ganha lugar no contexto de Clarissa. Está refletido na personagem de Amaro, o músico frustrado, já na casa dos quarenta anos, que contempla na vitalidade física e espiritual de Clarissa tudo aquilo que a vida lhe negou: segurança, alegria, imaginação - o sentimento de participar do mundo que se constrói a cada instante. Mas é tarde para voltar atrás; o tecido do tempo passado não se recompõe; e Amaro ama Clarissa à sua maneira, transferindo para ela a imagem da mulher que sempre idealizara e sabe que nunca chegará a possuir. Em certa altura, essa personagem, marcada pelo curso dos dias opacos e inglórios que lhe couberam, expressa a melancolia diante do futuro que não está mais ao seu alcance:
"O raio de sol é de um outro mundo. Clarissa, se eu pudesse falar, se tu pudesses entender. Eu te diria que nunca desejasses que o tempo passasse. Eu te pediria que fizesses durar mais e mais esse momento milagroso".
Ao opor entre si as personagens de Clarissa e Amaro, como se se tratasse dos dois pólos da existência, a luz e a sombra, o passado e o futuro, este romance permite vislumbrar uma preocupação que, alimentado por Erico Verissimo em livros posteriores, virá a ser um de seus temas recorrentes - o tempo; o comportamento dos seres perante o decurso do tempo, que é vida e morte, descoberta e esquecimento. Tanto é assim que ele irá acompanhar o destino de Clarissa e de muitos de seus companheiros, os quais ressugem ao longo da sua obra em Música ao Longe, Um Lugar ao Sol e Saga. Por outro lado, esta preocupação com a dialética da temporalidade, reelaborada e aprofundada de livro para livro, resultará na construção monumental de O Tempo e o Vento, assumindo as proporções de verdadeira parábola sobre a história e o destino do homem, iniciada em 1949 com a publicação de O Continente.
Parece-me ainda merecer registro outra característica que se tornará, mais tarde, verdadeira marca de identidade do romancista: a preferência (ou quase diria, a simpatia) pelas personagen femininas. Se observarmos bem, neste romance a "parte forte" da vida está representada muito mais nas mulheres (autoritárias como tia Zina, promessas futuras como Clarissa) do que nos homens, que, em geral, são indolentes, frustrados ou insensíveis. A releitura de Clarissa, hoje, sugere a indagação sobre se não residiria aí a matriz, ainda informe, das melhores criações do contador de histórias - a Fernanda de Caminhos Cruzados, a Olívia de Olhai os Lírios do Campo, a Ana Terra e a Bibiana de O Continente.
Resta dizer que o início da década de 1930 abriu uma fase extraordinariamente fértil para a prosa de ficção no Brasil contemporâneo. Quase simultaneamente surgiram o romance social de Jorge Amado, o conto de João Alphonsus, o "ciclo da cana-de-açucar" de José Lins do Rego, a poderosa obra de sondagem psicológica de Graciliano Ramos. No caudal dessa renovação de nossa literatura, Clarissa marcava o início de uma atividade criadora na qual Erico Verissimo elevaria o romance sulino ao seu ponto mais alto. Quarenta anos passados, o calor humano que se irradia desse pequeno livro mantém toda a vitalidade. E Clarissa continua sua trajetória.

Comentário extraído do livro Clarissa

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By Felipe Zschornack - 1999 /